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Sério, cadê?
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Sério, cadê? .


DOSTOIÉVSKI, moscovita condenado à morte por sua ligação com movimentos contrários ao regime czarista, teve sua pena transformada e foi deportado à Sibéria, onde ficou preso por quase cinco anos. Em Notas do Subterrâneo, de 1864, o personagem escreve num diário as mesquinharias de sua história recente.

Agora olhe pra cá e diga xis
Me chamo PEDRO. Nasci em março de 81 no bairro carioca de Santa Teresa. Moro em Fortaleza há alguns anos, mas ainda saio daqui. Desde seis de agosto de 2006 moro em Salvador. Meus pais se chamam Eveline, publicitária e ruiva, e Elcio, fotógrafo e nômade. Não sou Flamen e nem tenho uma nê chamá Terê. Perfil completo.


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Faça o que eu faço.
Ouça o que eu ouço
18 de fevereiro de 2003
Muito já se falou sobre o futuro do mindinho, tratado assim no diminutivo mais por desprezo que por carinho. Está fadado ao esquecimento, ao desmembramento até. Será artigo raro, contrabandeado de sítios arqueológicos na Zâmbia direto para os living rooms da quinta avenida.

7 de fevereiro de 2003
E me surge essa figura de conversa amena, despretensões e coisinhas. O assunto não aparece e nos despedimos. Fique com Deus, ela diz. Ela protestante, eu agnóstico. Entramos num bate-boca que, claro, foi a cabo sem nenhum vestígio de entendimento.

4 de fevereiro de 2003
Na geladeira faltavam ovos, mas de bife tinha a conta. Sacou a frigideira bum, cortou a cebola bum, picou pimentão bum, jogou sal no bife bum, dispensou óleo bum. E questionava-se sobre qual o homem mais respeitável: se Luís Gonzaga ou Roy J. Plunkett, o criador do teflon.

29 de janeiro de 2003
- Quer dizer que tu matou, foi?
- Foi.
- E por que é que tu fez isso, macho?
- Ele não ia com a minha cara.
- O que mais que tu tem pra dizer?
- Queria mandar um abraço pro Monstrim, que tá me assistindo. Monstrim!


27 de janeiro de 2003
Sou recém-chegado nesse negócio de comer Brigitte, admito. Há os veteranos, como meu pai, que sabem de cor a filmografia, a discografia e a biografia. Eu só sei da taquicardia, que nem é de Brigitte, é minha. Sei do verão de 64, de sua ida ao Rio e a Búzios, da Brigitte de bronze que ficou lá como prova irrefutável de sua passagem.

21 de janeiro de 2003
Tio Saulo dirigia a kombi dos Mutantes e namorava as moças mais lindas de que se tinha notícia naquelas freguesias. Apareceu em casa com uma aeromoça da Vasp como quem traz novidade para a família ver. Foi barrado aqui e acolá por causa do cabelo grande. Assim devem nascer os mitos: cabelo grande e censura.

21 de janeiro de 2003
Ouvi com paciência de Jó uma irmã, lá com seus 70 anos, comentando que a vida iria melhorar, enquanto manejava com certa dificuldade o ofício cristão de falar e manter os dentes dentro da boca ao mesmo tempo. A vida iria melhorar por que tinha fé em Deus, em Santo Expedito, além de um e outro do segundo escalão da hierarquia divina.

17 de janeiro de 2003
Tornei o sofá um confortável divã, e ali me estirei para o aprendizado. Repousei a alma sobre o bonito móvel de madeira talhada e ela ficou lá, estátua, sendo dissecada por suposições. Sentimentos contradizentes me apunhalavam agora e era bom sendo ruim. Cozinhei um bife para saciar a falta de apetite.

14 de janeiro de 2003
Vou comprar umas roupas, fazer uns contatos e quarta ou quinta-feira devo estar virando bicha. Até já escolhi o meu tipo: serei a bicha atormentada. Ficarei me perguntando se é isso mesmo que quero ser, se ainda não haverá uma artéria hetero nesse coração gls.

9 de janeiro de 2003
Vou fazendo um travelling pelo ponto de ônibus onde as mulheres cochicham em tom assombrado, pego um extreme close-up da moçoila que apressa o passo e me desaprova pelo canto dos olhos e saio em disparada, action cam, antes que o segurança do banco me dê um fade out direto no queixo.

6 de janeiro de 2003
Aqui as coisas estão bem. As coisas estão acontecendo e fazendo testemunhas. Estão sendo enviadas e matando saudades. Estão caindo na sopa. As coisas estão meio desarrumadas, desculpe a bagunça. Apesar de ninguém ter perguntado, as coisas estão bem, obrigado.

1o. de janeiro de 2003
Foram filho, mãe e avós assistir a O Filho da Noiva. Seu Osvaldo e dona Cecília passaram as duas horas com as mãos entrelaçadas e os fura-bolos se beliscando. É um filme bonito, bobo, leva às lágrimas o mais sisudo dos homens, mas para tudo há um limite. "Poupe-me, Osvaldo. Soluços, não."

23 de dezembro de 2002
Não tem mistério: xampu se compra pela descrição. Quanto mais longa e técnica a descrição, melhor o produto. Ela gosta quando empresto meu ar confiante às respostas. Bota o saponáceo no carrinho e vai, sabendo que respondi com a autoridade de quem entende de xampu.

21 de dezembro de 2002
D. Ma. sempre se orgulhou dos dotes do esposo, S. Fco., menino pobre saído dos quintos do NE para a pompa do DF de JK. Prosperou. Pelas mãos crioulas de S. Fco. passam hoje todos os pedidos de criação de siglas e abreviaturas do país, sejam do com., sejam pop., poét. ou polít. Burocrata?

19 de dezembro de 2002
Para o café com leite: coloque na xícara uma colher de sopa de leite em pó, adicione um dedo d'água e mexa. Coloque outra colher, adicione outro dedo e mexa outra vez. Vá adicionando a água e mexendo mais um pouco até encher. Não importa se hoje em dia o leite é instantâneo - para Seu Osvaldo, o importante é manter a tradição.

17 de dezembro de 2002
O sobrado já tinha para lá dos seus anos. Não se podia ver nada três palmos à frente, embora o som chegasse radiográfico. O sopro contornava as janelas e ia tomando a forma de vozes agudas, macias, inevitavelmente femininas. Pareciam ser jovens e segredavam entre risos: "Como é charmoso, até compensa a falta de bunda".

P O R T F O L I O
Jangada Veículos (Nissan) - Lançamento Serrana
Faculdade D. Pedro II - Vestibular
Sagguão - Outdoors Moda
Sólida - Tempo de crise
Academia Pump Tech - Levante-se
Sanauto - Promoção
Esc. Evangélica R. das Crianças - Lançamento
Morada do Parque - Lançamento
Diversos - marcas e logos
L U G A R E S
... Chimères [>]
... Observatório da Imprensa [>]
... Relume Dumará [>]
... Society for Cinema Studies [>]
... Carta Capital [>]
A R Q U I V O

31.1.03, 04:04

Maia Neto
ou Boinha para os sortudos


"Não havia ali sequer um livro, nenhum apócrifo manuscrito; a lida nem tivera a ver com o lido; nem mínima lista, nem uma bíblia, nem motivo para taxonomia; nenhum estilo ou cartografia; a sementeira não cedera a cultivo - era uma porção do paraíso!

Era, mais ainda, a fala retorcida garatuja meramente imitativa; eram reais Grifo, Gárgula, Hydra... No pensamento, precípuo precipício, era qualquer mergulho dificílimo; nenhum rigor seria ali possível; túnica nenhuma ali era cerzida - a pele do paraíso permanecia.

Incerto dia sem qualquer sentido, ali apareceram gestos presumidos cujo alimento já devia ser cozido, com o gosto do sublime e da ironia; começaram idas e vindas, odes, liras... Não se olhava para além da trilha, quando o horizonte era ali pertinho - o paraíso se perdera prorrompido."


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29.1.03, 17:01
Vida e morte Severina

está no ar o seu repórter esso. bip! bip!- E, a qualquer momento, voltamos com o resultado dos exames que dirão se as vísceras encontradas são mesmo da mulher esquartejada pelo médico assassino. De volta ao estúdio.
- Obrigado, Paulo. Vamos ver agora a segunda parte da entrevista com o marido da vítima, ainda muito abalado com o acontecido. Carla, é com você.
- Deve ter sido um choque para o senhor descobrir que sua esposa estava dentro de um saco plástico no porta-malas do cirurgião. Senhor? De volta ao estúdio.
- Obrigado, Carla. Vamos para um breve intervalo e logo depois - não? Não, voltamos ao IML com o nosso repórter, que tem novas informações sobre as vísceras da paciente esquartejada. Paulo, é com você.


Enquanto isso, na tevê local:

- Quer dizer que tu matou, foi?
- Foi.
- E por que é que tu fez isso, macho?
- Ele não ia com a minha cara.
- O que mais que tu tem pra dizer?
- Queria mandar um abraço pro Monstrim, que tá me assistindo. Monstrim!


Rubem Fonseca anda desgostoso esses dias.


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Ateísmo e resistência

"Agora sofrendo, sinto porque é com 's', pois se fosse com 'c' seguraria minhas calças.
Voltar às origens para saber porque o tempo muda a carne que agora é surda para os desejos da alma, que por temer o ateísmo filosófico, quer deixar recado para não ser abandonado por uma alma que não tem certeza se ainda existe, ou se é apenas reflexo de uma evolução que ainda insiste."

É por isso que eu amo esse menino.


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27.1.03, 17:38
Eu comi Brigitte

decifra-me ou te devoroCom os olhos, eu sei, mas comi. Diz meu pai que também comeu Brigitte, e que os irmãos dele todos comeram. O meu certamente comeu e suponho que até minha irmã tenha tirado uma lasca.

Sou recém-chegado nesse negócio de comer Brigitte, admito. Há os veteranos, como meu pai, que sabem de cor a filmografia, a discografia e a biografia. Eu só sei da taquicardia.

Sei do verão de 64, de sua ida ao Rio e a Búzios e da Brigitte que ergueram lá, evidência cobre de sua passagem. Conheceu melhor a bossa nova, e das bossas a melhor, a que fazia Carlos Lyra.

De Lyra Brigitte gravou Maria Ninguém, num português que deveria ser oficializado. Típico zé ninguém, só tenho por que agradecer. Tem muita socialite por aí se mordendo atrás de quem cante Maria Emergente. Não será Brigitte.


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25.1.03, 16:18
Poemas que gostamos de ouvir

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?

Carlos Drummond de Andrade

Pobre velha música!
Não sei por que agrado,
Enche-se de lágrimas
Meu olhar parado.

Fernando Pessoa

De hora em hora
O SBT informa
O resultado parcial
Da Telessena de carnaval.

Silvio Santos


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23.1.03, 16:08
Cú de mundo
ou
Planeta Umbigo
ou
Arranje um Título Mais National Geographic


Eis-me, banhado e pimpão, a ver se ainda listava nos Blogs of Note. Não estou mais lá. Meus 15 segundos de fama duraram uma semana. Relegado à desconfortável situação de ex-estrela, restava-me bisbilhotar os novos escolhidos, que serão bombardeados por comentários entusiasmados ("demais o seu blog, dá uma passadinha no meu tb") durante sete longos dias.

Todos semelhantemente parecidos, resolvi dar uma chance aos últimos 10 blogs atualizados, só pra sentir o drama e reconfortar minha auto-estima. Estava lá esse de nome engraçado, com letras escritas como no alfabeto baiano (para quem não sabe, na Bahia se ensina um alfabeto um pouco diferente): chamava-se Lê Mê Nê. Fui lá de curioso.

Leiaute bacana, um suculento prato de maniçoba de bobeira num dos posts (maniçoba é um prato típico de Santo Amaro e região), resolvo comentar; não tendo sistema de comentários, vai email mesmo. Aqui começa a incrível história de coincidências desse nosso vilarejo king-size (vulgo Terra):

Primeiros sinais
terça-feira, 21 de janeiro de 2003 11:16

Belo template. Internet com cara de internet e, melhor de tudo, com um prato de maniçoba no meio. Fiquei só no visual; os textos vejo depois, que o negócio agora é almoçar e tirar uma pestana.
Pedro Henrique

Eles falam nossa língua
quarta-feira, 22 de janeiro de 2003 13:18

Legal Pedro. obrigada pelos elogios. espero que depois da pestana (que inveja!!!) tenha tempo de ler os posts tmb!!! Apesar do Layout caprichado (desenvolvido pelo meu marido que é diretor de arte) sou redatora e adoro escrever, claro!!!
Vou aproveitar o tempo livre e conhcer o seu blog tmb!!!
Bjs
Mel

A verdade está lá fora
quinta-feira, 23 de janeiro de 2003 05:04

Você é redatora? Se o mundo não é pequeno, então eu não sei mais o que é. Também sou redator, ainda que no comecinho da carreira, e namoro uma jornalista com aspirações a diretora de arte. Pra dar gosto nesse caldo, morei anos em Salvador e conheço uma negrada boa dessas terras. Eita!
Pedro Henrique

Triste Bahia. Ó quão dessemelhante
quinta-feira, 23 de janeiro de 2003 12:49

Mundo pequeno mesmo!!!! Vc é de fortaleza, né? Sou baiana, mas moro em Sampa há quase 4 anos. Ainda conheço bastante gente do mercado de lá, mas tem muita gente nova. As coisas lá não estão nada bem. O mercado que já era pequeno está cada menor. Tem agência que era grande que está com apenas 1 dupla de criação. Um horror!! E as coisas ai na sua terra? Como é que estão? Não conheço Fortaleza, mas tenho bastante vontade! Dizem que é uma terra linda!!!
bjs
Mel

O nome da rosa
quinta-feira, 23 de janeiro de 2003 13:23

Sou carioca e fico pulando de galho em galho. O galho da vez é Fortaleza. Carioca sim, mas soteropolitano de coração. Bora, Vitorinha!
Mora em Sampa? Deve conhecer Elcio Carriço, fotógrafo publicitário. Figuraça. Grande amigo meu - além do detalhe de ser meu pai. :)
Pedro Henrique

O surto
quinta-feira, 23 de janeiro de 2003 14:41

Como assim Elcinho seu pai??? Tá louco???? O que é isso meu Deus?! Como uma criatura desvairada como aquela pode ter um filho!!!! Heheheh!!! Que legal!!!! COmo disse: mundo pequeno esse!!!! Pois se fizer uma busca no Lê Mê Nê vai ver que postei há uns meses atrás sobre uma exposiÇão que ele fez em Londres...umas fotos de Yemajá. Foi engraçado, pq tenho uma amigão que tá morando lá e me manda notícias para postar de vez em quando. Ai eu li e beleza...nem liguei o nome a criatura. Fiz uma busca no google para ver o que descobria sobre ele e sobre a mulher que estava participando da mesma expo. Ai dei a volta no mundo e decobri que Elcio é Elcinho!!! Hehehe!!! Que legal. Bem, tem muito tempo que não o vejo. E acho que ele não lembra mais de meu nome. Se me vir, com certeza lembrará da minha "pessoa". Fizemos alguns trabalhos juntos na Leiaute e acompanhei vários deles na Propeg. Sei que ele está por aqui por Sampa, por que outro dia lá na Africa (nova agência do Nizan) o Gordilho fez um trabalho com ele.
E apesar de ser filhod e um cara muito bacana, vc tem um grande defeito...já deu para perceber!!! Que história é essa de Vitorinha???? BARG!!!!
Bjsbjs
Mel

E fez-se a luz
quinta-feira, 23 de janeiro de 2003 14:56

Conhece aquele viado? Hahahahaha! Sim, também comentei no Notas do Subterrâneo sobre a exposição. A mulher que expôs com ele é a namorada, Marcella Haddad, baita duma fotógrafa.
Permite que eu poste esses emails no Sub Notas? Engraçado demais. E achei sua página porque tava na lista dos 10 atualizados do blogger.com e achei o nome incomum. Putz.
PS: pra esculhambar de vez: este seu amigo que está em Londres seria o Fabão?

* * *

Como acabará essa história? Deixará Mel que Pedro publique os emails aqui publicados? Poderá Pedro descobrir amigos em comum com a simpática desconhecida Mel? E, por fim, quando esse tal de ócio criativo vai começar a fazer efeito?


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22.1.03, 15:29
puta merda, caspa não!


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21.1.03, 14:58
Easy Rider no último

Está em casa o primo Ricardo, que não conhecia, irmão da prima Catarina, que nunca vejo. Ricardo trouxe a namorada a tiracolo, moça linda de nome que me escapa. Têm 18, 19 anos e há um mês viajam de ônibus pelo país. Amam-se demais, é claro. Ricardo é da fatia carioca sangue bom da família, filho do legendário tio Saulo, que não tive a chance de conhecer em vida.

Tio Saulo dirigia a kombi dos Mutantes e namorava as moças mais lindas de que se tinha notícia naquelas freguesias. Apareceu em casa com uma aeromoça da Vasp como quem traz novidade para a família ver. Foi barrado aqui e acolá por causa do cabelo grande. Assim devem nascer os mitos: cabelo grande e censura.

O almoço está na mesa. É a hora em que todos se reúnem em torno, arrastam as cadeiras para junto e aí só se ouve metal arranhando porcelana, uma tosse distraída e alguns "me passa o sal" ocasionais. Engraçado como conforta esse pequeno caos da mesa posta.

Todos têm uma história com tio Saulo e me arrependo de não ter nascido antes, no ano de sua morte que fosse, e que pudesse cantar de galo: eu e tio Saulo fomos contemporâneos, vivemos aqueles mesmos dias de 1981.


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Dai-me forças

Ouvi com paciência de Jó uma irmã, lá com seus 70 anos, comentando que a vida iria melhorar, enquanto manejava com certa dificuldade o ofício cristão de falar e manter os dentes dentro da boca ao mesmo tempo. A vida iria melhorar porque tinha fé em Deus, em Santo Expedito, além de um e outro do segundo escalão da hierarquia divina. Só não li o que segue em voz alta porque, enfim, o risco de a carmelita não escutar nada era muito grande.


Lei contra o cristianismo

Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso calendário).

Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo

Artigo Primeiro - Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.
Artigo Segundo - Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.
Artigo Terceiro - O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.
Artigo Quarto - Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à vida sexual, qualquer tentativa de maculá-la através do conceito de "impureza" é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.
Artigo Quinto - Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala - ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá-lo-emos em qualquer espécie de deserto.
Artigo Sexto - A história "sagrada" será chamada pelo nome que merece: história maldita; as palavras "Deus", "salvador", "redentor", "santo" serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.
Artigo Sétimo - O resto nasce a partir daqui.

Nietzsche in O Anticristo

Agora imagine se eu tivesse falado de Herman Obina.


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19.1.03, 07:42
Mal na foto

muita atenção no nariz da criança à esquerda. onde o senhor comprou essa batata tem mais?
Eu, Carol, e um gaiato querendo queimar o filme.

* * *

A carne em ebulição, a vista turva, umas coisas sem cheiro, outras coisas sem gosto. Diagnóstico: amanheci gripado.


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18.1.03, 12:49
. A Q U A L U N G .


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17.1.03, 17:36
Agressão e revide

Hoje nada foi feito, mas os ossos acusavam um cansaço como de horas de puro esforço. Fui despejado da cama às três da tarde por um trio que tocava xotes no aniversário de alguém desimportante e assim, escutando uma música de esgoto, passei o resto do dia. Cantasse no banho, pusesse um walkman - nada obstava o trote alucinante da zabumba. Senti-me invadido, a sordidez da massa agredia o indivíduo, meu direito ao isolamento era sumariamente negado.

Almocei com um amigo que não via há tempos, contei da minha vida e ouvi da sua, e percebi como é bom ser confidente de quem está ao largo. A distância - ainda que se relegue ao geográfico - não permite emotividades. Tornei o sofá um confortável divã, e ali me estirei para o aprendizado. Repousei a alma sobre o bonito móvel de madeira talhada e ela ficou lá, estátua, sendo dissecada por suposições.

Sentimentos contradizentes me apunhalavam agora e era bom sendo ruim. Cozinhei um bife para saciar a falta de apetite.


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16.1.03, 00:50
Eu não uso black-tie

Puxa vida, que badalação. Sinto-me astro de horário nobre, e nem me preocupo em parecer imbecilizante como novela das oito. Fico contente em saber que este confessionário é observado - embora isso tenha algo de Big Brother, atração desprezível que já embala a terceira edição.

Aproveito o espaço cedido pela Globo para expor algumas opiniões, que são:

1. A revista Época, editada pela Globo e franquia da alemã Focus, é pegajosa. Só me recordo de sentir tamanho asco quando passeio pelas páginas bem impressas e descontroladamente tendenciosas de Veja.

2. O serviço Blogger.com.br é usado por pessoas de menor idade. Imagino que a Globo.com saiba disso, ou não haveria templates direcionados a esse público. Eu infartaria se visse meus sobrinhos navegando por uma página com links para Sala Sexy e Paparazzo.

3. Imparcial é o caralho. No dia em que o Jornal Nacional for isento, Alberto Dines será redator-chefe e Miriam Leitão será correspondente política no Butão.

4. Há confessionários, como este, feitos para que 10 pessoas o leiam, não 300. Uma mensagem perguntando se o responsável pela página aceita ser listado não cairia mal. E não, eu não li o contrato. Ridículo eu precisar de um advogado para me traduzir dez páginas de nhenhenhém jurídico antes de começar a porra de um blog.

5. Tenho parentes na Globo; isso poderia explicar minha aparição nos Blogs of Note? Desconfie.

6. Vejam o que fizeram com a Déborah Secco! Quando protagonizava a série Confissões de Adolescente, na Cultura, era uma menina linda. Agora lembra muito uma puta que trabalha perto do posto Esso da Beira-Mar. Na verdade, devo estar cometendo uma injustiça. Tenho que esperar ela levantar a cabeça para ver se parece mesmo.

7. Ela é minha menina. E eu sou o menino dela.

8. Já entendi o mecanismo de compensação moral da Globo. Depois de um dia inteiro de Ana Maria Braga, Xuxa, Video Show, Malhação e Terra Nostra 2, de madrugada bate a culpa e aquele peso na consciência. Aí basta exibir o Telecurso 2000. Fichinha! O diabinho e o anjinho ficam quites. Aliás, só mesmo o mau-gosto da referida instituição pode explicar porque esses endereços não estão no Blogs of Note, e o meu sim:


Nota: está saindo um artigo meu relacionado ao primeiro item, sexta-feira no Tanomeio;


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14.1.03, 19:08
Naftalina

Pela quarta vez em dois meses, ouço mulheres dizendo que são fascinadas por homossexuais, que eles dão tesão e coisa e tal. Lembrei na hora de um texto pregado na primeira versão deste confessionário e que já saiu do ar. Portanto:

"Dia desses vem uma amiga dizer que acha os gays 'uma coisa assim, charmosa, sabe?'. Nada contra. Vou comprar umas roupas, fazer uns contatos e quarta ou quinta-feira devo estar virando bicha. Sim, porque ser bicha exerce um fascínio quase sexual sobre as mulheres do sexo feminino (certificar-se nunca é demais nesse mundo modernoso). 'Ele não é uma gracinha? Todo sensível, um desperdício ser viado.'

Até já escolhi o meu tipo: serei a bicha atormentada. Ficarei me perguntando se é isso mesmo que quero ser, se ainda não haverá uma artéria hetero nesse coração gls. As mulheres (do sexo feminino) adoram isso. Enquanto questiono minha vocação, vou roçando e apalpando as moças na disco, porque afinal de contas serei bicha e mulher não liga.

Farão de tudo para me consertar, até o dia em que, exausto, sucumbirei. Meu caso se tornará notório, abrirei um curso, Marília Gabi Gabriela me perguntará qual é minha cor favorita, qual é meu filme favorito e outras amenidades ping-pong, discorrerei sobre a importância de Barbra Streissand em minha formação enquanto ser humano e darei palestras para empresários do interior de São Paulo, enquanto poso de eterno gay que entende tanto as mulheres que resolveu comê-las."


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Sci-Fi antitranspirante

"Para ativar a esfera, friccione-a com o dedo polegar."

Da carta-magna no verso do desodorante Moderato, capítulo I, parágrafo II: Modo de usar.


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Fino senso de humor

Em envelope marrom-claro levando comunicado da Secretaria de Cultura, com pré-agenda para o Theatro José de Alencar em 2003:

"Ao Sr. Osvaldo Gadelha de Abreu (...) Condomínio Shopan, Edifício Polonése."


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13.1.03, 08:28
And now something completely different

Os ataques de 11 de setembro foram um choque. Não só destruíram um símbolo do ocidente civilizado, como enfraqueceram os alicerces da sociedade que vive do lado de cá do Atlântico. A internet reagiu rápido. Com piadas ou listas de orações, os internáufragos abarrotaram nossas caixas de entrada. Ninguém sabia ao certo como lidar com a situação. Passado um tempo, as correntes foram dando lugar a gracinhas como esta, que chegou a mim por meio de um spam.

De: "João Carlos Mendoatto"
Data: Ter Nov 6, 2001 9:31 pm
Assunto: wanted

Segundo recentes informações divulgadas pela assessoria de imprensa do FBI, o milionário terrorista sanguinário saudita Osama bin Laden, possível autor intelectual e financiador dos ataques de 11 de setembro, teria vindo ao Brasil, por ocasião das férias escolares de junho na cidade de Fortaleza, Ceará. Foram distribuídas fotografias nos aeroportos brasileiros, a fim de saber se bin Laden teria ido a outras localidades em solo tupiniquim. Tivemos acesso a uma dessas fotografias, que segue abaixo.


Certo. Antes de tudo, eu sou um pouco menos feio que isso; e depois, eu sei quem é o autor da piada.


Não se pode falar em psicodelismo brasileiro sem falar de música. E, falando de música, não tem como não mencionar, por exemplo, Rogério Duprat, arranjador e peça-chave no som dos Mutantes, além de "trilheiro" de várias porno-chanchadas da época. E segue uma renca de gente na mesma onda: Jorge Mautner, Tom Zé, Paulinho Boca de Cantor, Arnaldo Baptista e por aí vai.

E, acreditem, até o Ronnie Von (aquele senhor engravatado que faz receitas de bolo e vende xaropes contra calvície na TV) foi participante ativo do movimento ao largar a Jovem Guarda e gravar, em 68, um dos discos mais loucos e inspirados do rock brasileiro. Infelizmente, o disco (intitulado apenas Ronnie Von) não foi relançado em CD. Segunda-feira levo a capa na Central; é um belo exemplar do quanto se fumava na época.

Algumas capas de discos dos Mutantes (Mutantes e seus Cometas no País do Baurets, Jardim Elétrico, Tudo foi Feito pelo Sol) também ilustram muitíssimo bem o modo como digerimos a informação que vinha de fora.


Perguntaram-me porque eu não falava dos anúncios de Fortaleza. Eu não vou explicar nada, mas apenas citar os títulos de três outdoors atualmente na praça. "Festa? Né brinquedo não!", acho que para uma produtora de eventos; "Baba baby, baba", para uma grife, e "Tomografia computadorizada elicoidal sub-second", para um hospital. Se você não sabe a utilidade de uma tomografia computadorizada elicoidal sub-second, experimente ler o outdoor enquanto dirige.


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Ô, benzinho

É batata: querendo pedir um favor, peça cedinho. E se lhe negarem, certifique-se de não estar dialogando com uma pedra ou um liquidificador.


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12.1.03, 03:59
Contra as crises de identidade, Acnase

Este confessionário passou por mudanças, como a novidade de ter sido, durante dois dias, um blog comunitário. Como chegaram algumas queixas sobre os novos rumos do Subterrâneo, tudo será restabelecido.


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11.1.03, 15:07
The thrill is gone

Quer saber como se constrói um mito do capitalismo moderno?

Estou sozinho em casa e assim ficarei por uma semana. Do you wanna dance under the moonlight?, digo, inaudível, apontando-me no espelho. Ponho o disco, a máquina decide a música. The Thrill is Gone, ao vivo em Buenos Aires. Ironicamente, B. B. King escolhera aquela cidade para tocar sua versão menos cabisbaixa.

The thrill is gone. I can see it in your eyes, I can hear it in your sighs, feel your touch and realize: the thrill is gone.

Estou vestido como manda a ocasião: calção de poliéster, meias felpudas e uma toalha no pescoço. Um passo para cá, dois para lá, mímicas de um solo na minha Lucille de madeira compensada, caretas enfezadas e o rodopio final; aí está meu novo par de meias esburacadas, para desespero das linhas de montagem coreanas, que só conseguem dançar como Elvis.

O segredo está no solo.


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Ziriguidum no Cabaré do Gadelha

- Estamos já passando aí. Desça logo, mocinha.

E não tínhamos nem saído de casa. A lorota até vingaria, se o carro não morresse na garagem.

- O outro, pega o outro.
- Mas os documentos estão lá em cima. E se pegam a gente?
- Faz-se de grávido, o polícia entende.

Peço que venham, e vêm. Não é esse o grande trunfo das amizades, mas tem lá sua parcela de culpa. A casa ainda está uma zona, ninguém dobrou os lençóis nem colocou as latas vazias no lixo. E ainda me acordam dizendo que já vão, pobres coitados, como não soubessem que os deixarei em casa, fazer o que.

Não há nada que pague o momento. Mas estou aceitando um trocado para a gasolina.


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10.1.03, 17:01
A arte para crianças

Vi no Silenzio alguém comentar sobre os livros de bolso da Ediouro, que, cá pra nós, não são lá grande coisa: são impressos em papel jornal e editados até que virem um resumão da obra. Dessa linhagem, boa mesmo é a Coleção Pocket, da L&PM. Títulos a rodo (já passaram dos trezentos, tenho conta) e com alguma dignidade na impressão, além de serem igualmente baratinhos. O livro da vez é Mulheres, de Eduardo Galeano (esse mesmo de As Veias Abertas da América Latina, que tratava FHC como um gênio libertário). É dele esta pequena história:

"Ela estava sentada numa cadeira alta, na frente de um prato de sopa que chegava à altura de seus olhos. Tinha o nariz enrugado e os dentes apertados e os braços cruzados. A mãe pediu ajuda:

- Conta uma história para ela, Onélio - pediu. - Conta, você que é escritor.

E Onélio Jorge Cardoso, esgrimindo a colher de sopa, fez seu conto:

- Era uma vez um passarinho que não queria comer a comidinha. O passarinho tinha o biquinho fechadinho, fechadinho, e a mamãezinha dizia: 'Você vai ficar anãozinho, passarinho, se não comer a comidinha.' Mas o passarinho não ouvia a mamãezinha e não abria o biquinho...

E então a menina interrompeu:

Que passarinho de merdinha - opinou."

Eu até entendo que crianças não gostem de sopa. O que não tem cabimento é fazerem cara feia para brócolos - sim, brócolos é a forma correta do termo, por mais que Herman Obina reclame. Quanto à coleção L&PM Pocket, o mais caro, claro, é Ecce Homo: 25 reais pelo clássico de Nietzsche (e ainda me pergunto por que dedico este confessionário a Dostoiévski).


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9.1.03, 14:27
Pelo buraco da meia

As coisas ficam mais interessantes se olhadas pelo buraco da meia. Ali, naquele espaço que antes deveria ser ocupado pela ponta do dedão do pé, passam agora carros, transeuntes mascando chiclete e páginas de livros embolorados.

Não espere muito e lá estará a fila: gente espremida, aflita, afoita e transpirada aguardando deseducadamente sua vez de ver o mundo pelo buraco da minha meia. E não adianta recortar um buraco na sua própria meia, porque não haverá lascas de flanela dependuradas nessa mesma ordem displicente. Nem vale deixar o tempo agir sobre ela, porque não haverá a casualidade da descoberta. Coreanos trarão contêineres abarrotados de Naiques, Reboques e Meyas Phuradas, mas o cidadão de bem não se deixará levar.

Espreitar o mundo daqui é mesmo um barato. Não tem a precisão de lunetas e nem mesmo revela num papel acetinado as atrações da cidade, mas é quando enfio o olho no buraco da meia que a coisa fica divertida. Vou fazendo um travelling pelo ponto de ônibus onde as mulheres cochicham em tom assombrado, pego um extreme close-up da moçoila que me desaprova pela beira dos olhos e saio em disparada, action cam, antes que o segurança do banco me acerte um fade out direto no queixo.


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8.1.03, 21:34
Mistérios da meia-noite

Coisas estranhas têm acontecido esses dias. Ontem, quando já queria ir embora da festa, começa a passar Yellow Submarine, minha animação favorita. Boto o pé em casa e Einstein me diz que antes tarde do que nunca (às quatro da matina). Agora, completamente por acaso, acho isto num blog aleatório, e num post de outubro do ano passado.

A última vez que me correu um arrepio assim até a nuca foi num abraço que recebi domingo. Não sou supersticioso, que isso é coisa de chacras, mantras, trevos, despachos, mandingas, uquelelês e leitores de Paulo Coelho. Mas isso é cutucar com vara curta.


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Se meu fusca falasse

Acabo de chegar em casa e abro o Word para falar da festa de 75 anos do jornal O Povo. O assistente do Office (geralmente um clip de papel), que costuma dizer bobagens do tipo "você sabia que pode usar os atalhos de teclado ctrl+c e ctrl+v para copiar e colar, respectivamente?", aparece agora com isso:

nunca subestime o que um computador tem a lhe dizer


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7.1.03, 14:47
Sem demora

Sonhos, de Kurosawa. Por favor, assista.


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6.1.03, 15:16
Oi.

Aqui as coisas estão bem. Estão indo, como você disse que deveriam ir, estão bem. Fluindo, como fluem idéias desses brilhantes que inventam coisas que me deixam aqui, sentado, movendo apenas a ponta dos dedos. As coisas estão acontecendo e fazendo testemunhas. Estão sendo enviadas e matando saudades. Estão caindo na sopa. As coisas estão começando diálogos em algum lugar. As coisas estão reluzindo, caprichosa a empregada. As coisas estão caminhado. Na surdina, que é para ninguém descobrir. As coisas vão em paz. As coisas estão como e onde são para estar. Não: as coisas, embora eu não faça idéia do que as coisas sejam, estão mudando. Você não sabia? As coisas se transformam, disse um desocupado. As coisas estão meio desarrumadas, desculpe a bagunça. Apesar de tudo, as coisas resistem. Apesar de ninguém ter perguntado, as coisas estão bem, obrigado.


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Se eu lhe tivesse dito antes

"Fortaleza, 13 de janeiro de 2002.

Cheguei ao curso com uma missão: impressioná-la. Poesia, claro! -, é sempre a primeira idéia. Quem eu poderia plagiar, deixe-me ver. Não, talvez uma carta seja mais objetiva. Querida Fulana, é que eu não sei o seu nome. Pior, vai que você tem namorado, é casada, é lésbica, tem filhos, não acredita em relações sustentadas por esse joguinho mentiroso, sádico e desumano que lhe priva do direito de acordar no dia seguinte com todo o lençol para você e aquela remela no olho esquerdo! Não me importa.

Puxa vida, você precisa saber que eu sou um sujeito bacana! Vou compor uma canção, assim tipo o tema do casal da novela das oito. Ficaria ótima se eu soubesse compor. Mas não precisa ter letra, vai, pode ser um violãozinho básico. Preciso só de uns meses pra aprender como se toca. Estou começando a pensar se sou mesmo tão bacana assim. Talvez eu pudesse lhe mostrar meu álbum de família para você ver que fui criado num ambiente legal, que papai insistia em ter cabelo feio, que já fui à Chapada Diamantina e que ganhei uma fantasia genérica quando completei nove anos e que, como era uma criança boa praça, fiz que acreditei ser do Jaspion.

Você precisa saber que assisti a Meu Pé Esquerdo com minha mãe e que gosto de figurinhas de futebol; que tento entender Sartre e acho Caetano cantando Sozinho indigesto pacas; que vejo o Show do Milhão e que nada me arrancava da tevê às sete da noite de domingo; que amo Kurosawa e que não perco uma reprise de Elevador Assassino; que minha teoria filosófica é de que, quanto mais complicado o nome do autor, melhor a obra (por isso Nietzsche é quem é) e que tenho revistas raríssimas, dos anos setentas, full-colour, de pura sacanagem made in Sweden.

Só a vi uma ou duas vezes na vida, nunca nos falamos e, ainda assim, vê o que aconteceu? Fiquei idiota. Saio por aí cantando Carinhoso no cruzamento da Barão com Santos Dumont. Mas o meu recente estado de imbecilidade não é de todo mau, porque esses são sintomas que só apresenta quem está apaixonado - o que me faz concluir que ser imbecil é a melhor coisa do mundo.

Isso parece correspondência de super-herói: eu não sei sua identidade, e você também não saberá a minha."

A primeira carta de amor a gente nunca esquece (ainda mais se ela nunca foi entregue).


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5.1.03, 14:32
Raciocínio lógico

1. Hoje é domingo, daí a deduzir que

2. A Conceição está de folga, e por isso

3. Ninguém levou minha vitamina de abacate com Neston na cama.

Isso me deixa mal-humorado. Cuidado comigo.


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3.1.03, 17:43
É cinema, mas poderia ser sexo

Não olhamos a vida, nós a penetramos. Esta penetração permite todas as intimidades. Um rosto, sob a lupa, rodopia, exibe uma geografia febril. Cataratas elétricas escorrem pelas fendas desse relevo que chega até mim recozido a três mil graus de arco voltaico.

É o milagre da presença real,
a vida manifesta,
aberta como uma bela granada;
liberta da sua capa,
assimilável,
bárbara.

Teatro da pele.
Nenhum estremecimento me escapa.
Um deslocamento de planos contraria meu equilíbrio.
Projetado sobre a tela, aterrisso na entrelinha dos lábios.
Que vale de lágrimas, e mudo!

Diante de um drama acompanhado assim de binóculo, músculo por músculo, qual o teatro de palavra que não se afigura miserável?


Epstein, explicando, admirado, a Estética da Proximidade no cinema (ou o que hoje chamamos - pobre Epstein - de zoom).


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Ainda quero ser do cinema

Estou em transe absoluto. Minha mãe veio de Salvador e com ela um tanto assim de bons livros. Tenho revezado minha atenção em dois: Reinventando a Cultura e A Experiência do Cinema, esse último um trololó enorme de pesado, antologia da filosofia e estética no cinema organizada por Ismail Xavier. Quis pregar aqui alguns textos do livro, mas a internet é inútil nessas horas: nenhum dos textos estava disponível na rede, e eu é que não vou digitar tudo. Quando deliro sobre as possibilidades do cinema, é mais ou menos isso o que quero dizer, sem saber dize-lo:

"A literatura moderna está saturada de cinema. Reciprocamente, esta arte muito assimilou da literatura. Na verdade, a colaboração cine-literária produziu adaptações que nunca cansaremos de criticar e que desencaminham o frágil embrião de um modo de expressão ainda hesitante, mas que é o mais exato e sutil que jamais se conheceu.

Se um filme qualquer, cujo realizador ignaro só conhece das letras a Academia e seus consortes, nos faz pensar, apesar desse realizador e sem que ele o saiba, na literatura moderna, é porque existe realmente entre esta literatura e o cinema um natural intercâmbio que evidencia algo que vai além de um parentesco.

Antes de tudo: a literatura moderna e o cinema são igualmente inimigos do teatro. Toda tentativa de conciliação não resultará em nada. (nota do Pedro: está vendo, Juliana?) Duas estéticas, como duas religiões, não podem conviver lado a lado como estranhas sem se combaterem. O que pode este teatro contrapor a uma tela onde se registra o menor movimento dos músculos e onde um homem, que nem ao menos precisa representar, me encanta porque, simplesmente como homem, anda, corre, pára e se volta, às vezes para oferecer seu rosto como alimento ao espectador voraz."

Jean Epstein, O Cinema e as Letras Modernas, 1921


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Gabriel, alter-ego de Gábs (e não o contrário), brindou-nos com uma fábula do metamorfo Franz Kafka. Todos os créditos ao Gabriel - e ao Gábs -, portanto, pelo que segue:

- Tomatinho, ó o ca -- pff!
- Quê? -- pff!

(Minúscula parábola pública com recursos onomatopéicos. Moral da história: cozinhe seus tomates antes que atravessem a rua.)


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2.1.03, 16:29


(E ainda diz que não me reconhece.)


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Em voga

E a moda agora é ouvir Buarque e ler Lispector. Mais que isso, é ouvir Chico e ler Clarice.


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Já dizia Neil Young



Hey hey, my my
Rock and roll can never die


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1.1.03, 17:33
Em família

Foram filho, mãe e avós assistir a O Filho da Noiva. Seu Osvaldo e dona Cecília passaram as duas horas com as mãos entrelaçadas e os fura-bolos se beliscando. É um filme bonito, bobo, leva às lágrimas o mais sisudo dos homens, mas para tudo há um limite.

- Poupe-me, Osvaldo. Soluços, não.


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